‘Choque de gerações’ ou ‘papo de velho’…

Ultimamente tenho me visto às voltas com a necessidade de lidar com a geração seguinte à minha. Detalhes sobre esta situação não são relevantes, portanto vou restringir a informação ao mínimo, ou seja, estou tendo de aprender a lidar com gente bem mais nova do que eu, para as quais axé é uma coisa tradicional – e não um fenômeno inventado de marketing –, o mundo sempre foi digital e o importante mesmo é curtir a balada.

Certo, posso estar exagerando, como sempre, mas o caso é que qualquer um que se depare com essa situação fica bastante preocupado com os rumos que estamos tomando. Isso porque este pessoal simplesmente não consegue pensar por si mesmo. Pode ser influência do Google, que responde a todas as dúvidas como o grande oráculo digital de uma geração, mas tenho notado uma imensa dificuldade de estabelecer um raciocínio extenso sobre algum assunto específico, com vistas a chegar-se a uma conclusão. Não, eles não têm paciência de pensar e querem a resposta imediata, pronta, para tudo. Se isso não acontece, começam a se coçar dentro das chinelas como um macaco no cio. Eu não acredito em terceirizar o pensamento e acho extremamente importante entender todo o processo para contemplar a solução com tranqüilidade e calma. Mas isso, definitivamente, é coisa de gente velha e anacrônica.

Como resultado deste comportamento, estamos criando, pelo pouco que vejo, uma geração de ansiosos e birrentos seres humanos, que não podem ser minimamente criticados, corrigidos ou mesmo incentivados. Não, eles sabem tudo, são seguros e suficientes de si e não precisam que algum idiota venha lhes dizer o que fazer. Sei que este sempre foi um comportamento característico da juventude e da contestação que a acompanha, mas até isso tem limite. Cresci aprendendo a respeitar a todos, a fazer as perguntas certas na hora apropriada e a pensar por mim mesmo. E, mais do que tudo, a respeitar especificamente os mais experientes.

Não que eu tenha alguma coisa contra o Google, acho bem interessante e indispensável para a vida moderna. Mas ele não responde nem 10% dos problemas efetivos do mundo, rapaziada! Muita calma, portanto, cabeça fria, leitura e paciência. Este é o caminho e, enquanto não mudarmos radicalmente a visão do que é o conhecimento relevante, não tem como ser diferente.

Drogas, tô fora!!!

O consumo desenfreado de drogas causa danos irreparáveis no cérebro da pessoa, isso é um fato comprovado. Muita gente boa, no entanto, não se dá conta do mal que está fazendo a si mesma e simplesmente ignora as recomendações médicas e sociais, se enfiando em um mundo em que cada vez se chega mais baixo, até um ponto que praticamente não tem mais volta. Vejam o caso do velho Ozzy, por exemplo:

Ozzy no fundo do poço

Alguém precisa ajudar esse moço, sério!

Começar de novo… Tudo???

A imagem ao lado faz parte da campanha “Começar de Novo” do CNJ, destinada a cadastrar empresas dispostas a recolocar no mercado de trabalho ex-detentos que tenham encerrado o cumprimento das penas privativas de liberdade respectivas. O lado esquerdo representa o cidadão de volta ao trabalho, e o da direita retornando ao crime. Pode ser paranóia da minha cabeça, mas não parece que o esteriótipo do marginal está descambando para o racismo puro e simples? O trabalhador, todo limpinho, branquinho e barbeado contrasta com um criminoso de cor de pele mais escura, com barba por fazer e aparentemente sujo. Eu sei que o perfil do condenado no Brasil é este mesmo: preto e pobre. Colarinhos brancos e grandes golpistas raramente vão para a cadeira, por isso não teriam porque necessitar de uma vaga de trabalho após cumprirem suas penas. Mas um órgão como o CNJ não precisava deixar isso tão claro. Parece que o preconceito está tão arraigado que alcançou os escalões que deveriam lutar incessantemente para evitá-lo. Posso estar exagerando – não seria a primeira vez – mas acho que alguém do marketing institucional pisou feio na bola…

Vamos oficializar?

O que me espanta, na realidade, não são nem os fatos em si, mas a reação quase nula que se tem a partir do conhecimento deles. Se levadas ao pé da letra as acusações atuais, José Sarney é um coronel nordestino que usa a máquina pública para financiar seus projetos pessoais, emprega parentes e desvia dinheiro do orçamento a roldão. O PMDB é uma máquina fisiologista que se entranha em todo e qualquer governo eleito, embora todos estes neguem o fato com certa veemência. Yeda Crusius participou de esquemas e negociatas na DETRAN e no Banrisul, enriqueceu e comprou uma casa com recursos muito superiores a seus rendimentos. Os deputados e senadores voam a passeio para lá e para cá, com dinheiro do erário, além de mandar a família fazer turismo com estes mesmos recursos. Enfim, a casa está caindo por cima, mas estamos todos aparentemente anestesiados com tudo isso. Lembro como se fosse hoje do prazer de ver o governo Collor ter suas negociatas desbaratadas pelas revistas semanais, sendo exposto ao ridículo na mídia. Aquele quadro – tirando a patuscada dos ‘cara-pintadas’ – dava ares de renovação no País, parecia que estávamos chegando a um ponto de amadurecimento nas relações sociais e governamentais. Para mim, foi a última chance que tivemos de resolver as questões da lisura e da probidade na administração pública, porque na época alguém ainda se importava. Mas até isso foi manipulado, a grande mídia se apressou a se isentar de qualquer responsabilidade na eleição do Collor, e somente uma certa resistência e antipatia contra este no Senado fez com que o processo de impeachment seguisse adiante.

Verdadeiras ou não, as notícias atuais não repercutem, estamos todos assistindo passivos a um quadro grave de crise institucional, como se nada estivesse acontecendo. Fomos assimilando a idéia de que o sistema é assim mesmo, todas as denúncias de roubalheira são, invariavelmente, manobras eleitoreiras e, salvo se o camarada for filmado com a mão na massa – e ainda assim, com sua concordância, porque filmar escondido não vale – não se admite nada como prova efetiva da cafajestada. Como se mensaleiro fosse passar recibo do valor embolsado. Como se dona Yeda fosse dizer ‘olha, comprei a casa com dinheiro de campanha, mas danem-se, já tô eleita mesmo’. Enfim, até prova em contrário são todos inocentes, e assim permanecerão, porque nada mais é ‘prova em contrário’. Situação impensável, Collor, Renan e Sarney fecharam questão, formando uma nova tropa – esta sim, me parece ‘de elite’ – para se manter nos cargos e funções assumidas no Senado. Apesar de tudo indicar o contrário, parece que não houve mensalão mesmo, e era tudo uma criação da mídia para desestabilizar o Governo Federal. E, a todas essas, vamos ficando mais anestesiados, passivos e desencantados.

Por isso, quem sabe a gente oficializa? Sugiro a elaboração de uma lei assegurando às autoridades competentes, conforme sua área de atuação, a comissão de 10% (dez por cento) sobre todo e qualquer gasto público. Simples assim. Licitou, construiu, aprovou obra, arrecadou? Passa no caixa e pega a comissão. Pode parecer besteira, mas tenho certeza que assim economizaríamos dinheiro e seríamos poupados do teatro dos horrores que virou a política no Brasil. E com a vantagem de, com o ‘seu’ garantido, não iria ter governante fazendo ouvidos moucos a apelos populares. Precisa de ponte, de posto de saúde, de escola? Claro, é para já. De qualquer forma, parece que moralidade pública, agora, é questão de acertar o quanto. Por que não tentar?

O monoteísmo é um erro

A busca da humanidade por uma explicação plausível para a vida, o universo e tudo mais sempre foi uma característica incessante. Desde que superamos os nossos parentes primatas e conseguimos nos comunicar e manter um registro, verbal ou escrito, de nossas experiências – e um certo senso crítico sobre elas -, tentamos encontrar algo que não faça da nossa existência no planeta uma coisa gratuita, sem nexo e sem destino. Acredito que um dos maiores medos, senão o maior, do homem é morrer e, bem, morrer. Acabou, ponto. Por isso, não havendo como, no início dos tempos, explicar até mesmo o mais simples fenômenos naturais, fomos desenvolvendo um pensamento mágico-mítico sobre forças sobrenaturais superiores. Devia ser muito complicado para as primeiras civilizações explicar coisas que as assustavam: o trovão, a chuva, o fogo, a neve, e por aí vai. Por isso, mitos e mais mitos, crenças em deuses diversos, cada um com seu caráter e humor próprios de domínio sobre um ou outro aspecto da vida no planeta. Deuses guerreiros, bondosos, vingativos, glutões, hedonistas, enfim, deuses para todos os gostos. Alguns destes mitos remontam a milhares anos antes da nossa era – marcada, diga-se de passagem, por outro mito religioso, mas sobre isso escrevo depois.

Durante milênios, as diversas civilizações e culturas acreditaram em seus próprios deuses, escolhidos a seu bel prazer. Babilônicos, sumérios, gregos, egípcios, nórdicos, romanos, cada um tinha seu panteão de divindades e cada uma delas atendia a um fim específico. Essas civilizações floresceram em meio a uma torrente de crenças diversas, cada uma adequada ao perfil do povo específico. Povos guerreiros sempre tinham com principal divindade algum deus da guerra, povos afetos às artes adoravam deusas da música, da pintura, do equilíbrio. Mercadores e navegadores tinham seus altares para divinos protetores das rotas marítimas e terrestres, porque seu único interesse era chegar logo ao destino e entregar suas mercadorias, retornando com o lucro respectivo, para então começar tudo de novo. Nessa promiscuidade, deuses casavam com humanos, coexistiam com outras raças e espécies de seres, tais como titãs, elfos, duendes, exus e por aí vai. E todos esses impérios floresceram, prosperaram, enriqueceram e tiveram sua apoteose, para depois serem dominados pelo império seguinte, o que acentuava ainda mais o quadro geral, na medida em que deuses e divindades ‘migravam’ junto com seus adoradores.

Do outro lado, do ponto de vista científico, é impressionante ver como tais civilizações antigas prosperaram e realizaram coisas que, com as técnicas da época, até hoje nos surpreendem. Ainda temos, para muitas destas realizações, a perplexa pergunta ‘como eles fizeram isso?’. Arrisco a dizer que os homens atuais, frente aos desafios que se apresentavam na antiguidade, sentariam e chorariam, sem ação, pondo fim à raça humana. Era preciso muita coragem e determinação para construir as coisas na base da força braçal, descobrir na tentativa e erro e apresentar os resultados. Hoje nos jactamos de todo nosso progresso, nosso conhecimento acumulado, mas quantos de nós efetivamente sabe de algo do que está acontecendo? Quase ninguém. Não é teoria conspiratória, é apenas um fato: o mundo cresceu demais, apesar da impressão de que está menor, com a comunicação globalizada e tudo o mais, mas o fato é que há níveis demais, complicações demais, oportunidades e negociatas demais.

E o que isso tem a ver com o monoteísmo? Tudo. Com o devido respeito a quem pensa o contrário, nós somos o que somos, retrógrados – sim, retrógrados, não confunda permissividade com liberdade, desleixo com tolerância, arrogância com sabedoria -, individualmente inferiores a nossos antepassados em termos de domínio do conhecimento geral acumulado pela humanidade, e perdemos, de um modo geral, o interesse pela descoberta, pela ousadia, confiando demais em ‘especialistas’ e esperando que empresas sem face resolvam nossos problemas, porque tudo o que vivemos, respiramos, acreditamos, se funda no legado de uma mancha indelével do homem na terra: a Igreja Católica Apostólica Romana e todos os seus renegados filhotes. Não que os católicos tenham criado o monoteísmo, antes haviam os judeus e seu deus único, Javé, e depois surgiram os muçulmanos, com Alá e seu Profeta, mas foram eles que o espalharam como uma doença por toda a humanidade, acirrando a intolerância e a ignorância como forma de dominação e submissão.

Sim, porque, no fundo, não há um único registro confiável do que seja a vontade deste Deus único que adoramos como alternativa exclusiva nos dias atuais. Na verdade, o que é dito como ‘vontade de Deus’ nada mais é do que a transcrição deturpada de supostos contatos com o Criador e das palavras de seu filho, Jesus Cristo, transcritas no novo testamento sem que – e aqui cito Harold Bloom – haja uma única destas linhas escrita por pessoas que conviveram de verdade com o personagem histórico. Tanto isso é verdade que a igreja primitiva promoveu concílios e discussões acirradas para eleger os evangelhos ‘autênticos’, ou seja, aqueles que deveriam fazer parte do catecismo oficial. Intuitivo deduzir que, tendo desprezado vários outros, somente os que se encaixavam ao padrão de comportamento eleito, escritos séculos depois da morte de Jesus, foram admitidos, tudo com vistas a legitimar reinados, ampliar poderes e impor a dominação aos povos. Em resumo, não se trata de verdade única, apenas a verdade escolhida, aquele que servia aos interesses.

E, desde então, vivemos com este estigma de uma sociedade concebida com o foco em um comportamento predeterminado e que asseguraria o acesso ao ‘reino dos céus’. E eu pergunto: como desconsiderar todas as outras possibilidades? Por que afastar o deus dos judeus ou dos muçulmanos – ou a compreensão dele, caso se considere que são todos o mesmo deus único e criador, coisa que não farei, por absoluta falta de embasamento – apenas por mentiras, intolerância e ganância? A dominação cultural e econômica decorrente do catolicismo é a mais hedionda da história, sem sombra de dúvidas. O colossal atraso imposto pela nova religião condenou a humanidade a uma idade das trevas duradoura demais, na qual se queimaram ‘bruxas’, derrubaram-se governantes honestos, manipulou-se o entendimento e a vida da população, extorquindo dela até o último vintém disponível. Uma brutalidade sem paralelo. Isso sem falar nos sub-produtos deste embuste: a pecha fixada em judeus de sujos e inconfiáveis, porque foram eles que mataram o Filho do Homem, o holocausto, a incomunicabilidade com o mundo árabe que, durante toda a idade média, esteve anos-luz à frente do catolicismo em termos de desenvolvimento científico e cultural. Nos dias atuais, tentando sobreviver, os católicos revêem algumas posições, querendo se modernizar, mas um pouco tarde demais, ao menos para as bruxas e cientistas condenados e executados como hereges. E para reverter o processo de inquestionável boçalidade que estabelecemos.

Por isso tudo, entendo que o monoteísmo seja um erro de concepção, uma forma de pensar opressiva e velhusca. Ainda hoje vemos os frutos disto tudo nas guerras disfarçadamente travadas em nome do Senhor – quando a briga, todo mundo sabe, é pelo petróleo – e na fundação de cultos evangélicos que tentam enriquecer à custa da ignorância do povo. Por mais que os católicos as repudiem, foram eles que prepararam o terreno para esta gente, hoje próspera, rica e lustrosa, mas que, de forma alguma, pode se eternizar. Assim como todas as formas de pensamento único e direcionado. Liberdade de credo tem que ser mais do que uma mera garantia escrita em constituições que ninguém lê. Deve ser a libertação de todo o modelo implantado, pelo nosso próprio bem.

O valor único

Para quem mora no Brasil, escândalo envolvendo dinheiro público é uma coisa absolutamente cotidiana. É passagem aérea para a família para cá, mensalão para lá, superfaturamento não sei mais onde, num círculo vicioso instalado há décadas e que, para falar a verdade, não sei se alguma geração vai chegar a banir. Reclamamos muito, de tudo, principalmente porque não são tomadas quaisquer medidas para coibir tais abusos. Nenhuma mesmo. Parece que mais sorte tem quem chega primeiro, quem consegue meter a mão na bolsa da viúva antes… Eu, particularmente, ando absolutamente cansado de tudo isso. Desde que me entendo por gente – mais ou menos uns três meses atrás – as coisas são assim, é pilantragem em cima de pilantragem, e já não tem nem mais graça falar disso. O mais dolorido é que esse comportamento reflete exatamente o das pessoas que colocam estas raposas para cuidar do galinheiro: o eleitor. E este, por sua vez, faz tudo o que faz porque tem uma única lógica na sua cabeça: o dinheiro!

Fenômeno mundial, o endeusamento da bufunfa faz com que as pessoas tomem atitudes cada vez mais tresloucadas, transformando o único valor que não está intrinsecamente ligado ao caráter no único válido. Em síntese, honestidade, lisura, lealdade, palavra, tudo isso são coisas absolutamente dispensáveis e irrelevantes. Apareça bem vestido e com um carro do ano, e ninguém vai se importar se isso tudo foi adquirido com dinheiro honesto ou com desvios e crimes. A influência do larjã é tão grande que cega as pessoas e faz com que algumas atitudes levianas e impensadas as conduza ao extremo: perder dinheiro! Algumas pessoas não se dão conta de que, ainda que possam ter um ganho imediato, isso representa uma perda no futuro, e não necessariamente um prejuízo para o suposto ‘lesado’. Mas não adianta, quando se trata de lucro, vendemos a mãe, desrespeitamos e prejudicamos amigos, colegas de trabalho, familiares e quem mais estiver na volta. Coisas que seriam absolutamente ilógicas passam a representar grandes metas na vida das pessoas. Perde até um pouco o sentido a velha frase feita de que os fins justificam os meios. Atualmente nem as finalidades práticas justificam o fim almejado. Triste viver esses tempos, em que somente a carteira se apresenta como importante. Pena.

A mãe de todos os vícios

Toda e qualquer virtude pode ser definida como o exato meio termo entre duas posturas opostas e antagônicas em uma determinada linha de comportamento. Assim como existem os perdulários, há os avarentos, cada conduta situada em uma ponta de um grande espectro de possibilidades. O centro, ou seja, o equilíbrio entre estas duas características, pode ser classificado como virtuoso. É bom e equilibrado o homem que, sem se descuidar do futuro e sempre sendo previdente, ainda sabe dedicar parte de seus ganhos para o lazer e outros prazeres hedonistas, auxiliando, finalmente, o próximo quando necessário e possível. O raciocínio vale para qualquer aspecto da vida humana. Não existe virtude no excesso, nenhum mérito na insuficiência. Pode-se afirmar, portanto, que o homem médio – assim entendido aquele que pauta suas condutas pelo equilíbrio entre posições eqüidistantes – é o homem bom, honesto, são.

De outra parte, na nossa cultura convencionou-se condenar a mediocridade como algum ruim, indesejável em todos os aspectos. O que poderia parecer um contra-senso, não fosse a análise mais acurada que pode ser feita sobre o ‘saber’ popular. A mediocridade, como por nós definida, diz respeito àquela postura arrogante em relação a vida, que o brasileiro é mestre em adotar. Batemos no peito e estufamos o pulmão para falar sobre a nossa ignorância. Lemos poucos, e quando lemos são os Paulo Coelho e Lair Ribeiro da vida. Temos uma política corroída e pobre, mas é o nosso jeito ‘malandro’ de ver o gerenciamento da máquina pública. Acreditamos em qualquer bobagem que nos imponham, lemos ‘O Segredo’, fazemos terapia holística e tomamos florais de Bach adoidado. E continuamos sempre desbordando de qualquer boa conduta. Somos rudes, toscos, mal educados e ignorantes, mas temos muito orgulho disso! Por isso sempre acreditei que a mediocridade, tal como o brasileiro a definiu, é a mãe de todos os vícios. Fugir dela, portanto, e chegar à média, na verdadeira acepção da palavra, deve ser o objetivo de vida de todos nós.

Por isso o conselho: menos axé e mais cabeça aberta para ouvir outras coisas. Menos esperteza e mais preocupação com os deveres. Não proclame o direito que tens, procure ver se este direito pode ser exercido em prol dos que estão mais próximos. Não compre subwoofer, e se comprar não abra o capô de seu carro quando essa porcaria estiver ligada. Beba com moderação, de preferência não em locais públicos como praias e afins. Respeite o outro. Assim, tudo pode melhorar. Inclusive, por mais incrível que possa parecer, para você também.

Outra que ‘não pegou’.

E eis que, passados sete meses da publicação da chamada “Lei Seca”, aquela que estabeleceu a tolerância zero para o álcool no trânsito, com a fixação de multa de nada menos que R$ 957,70 e suspensão do direito de dirigir por um ano para os motoristas flagrados com até 6 decigramas de álcool por litro de sangue, e até dois anos de prisão para medições com valores superiores a este, o número de acidentes envolvendo motoristas alcoolizados voltou a crescer, apesar de uma sensível mudança no quadro no período imediatamente subseqüente à entrada em vigor da referida lei. Se, no início, sentiu-se uma significativa queda no número de atendimentos a vítimas de acidentes envolvendo motoristas embriagados, as ocorrências deste tipo na cidade de São Paulo em dezembro de 2008 aumentou em 39% em relação ao mesmo mês do ano anterior, segundo dados divulgados pela Superinteressante (edição de fevereiro/2009). Não encontrei dados referentes ao Rio Grande do Sul, mas acredito que esse indicador paulista seja uma amostra relevante do quadro atual, muito similar ao existente anteriormente à lei.

Quando da edição da nova legislação, defendi a idéia de que os novos parâmetros fixados eram absolutamente despropositados, e beiravam ao absolutismo. Tive de ouvir as explicações de sempre, porque em tal lugar é assim, em outro assado, etc. Mas o fato é que nossa draconiana legislação se assemelha, apenas, àquelas de países notoriamente intolerantes em qualquer área, incluindo aí os muçulmanos – cuja proibição do uso de álcool é, antes de mais nada, um preceito religioso. Como não não pretendia impor a idéia a ninguém – a tolerância é fundamental à boa convivência -, deixei o assunto de lado, até mesmo porque, como todos sabem, a fiscalização foi arrefecendo, ninguém mais teve que soprar em bafômetro, as autoridades começaram a esboçar as mesmas desculpas de falta de pessoal e equipamentos, e o cerco foi afrouxando, até o ponto de retornar tudo ao estado inicial. Ou seja, estamos de volta ao caos no trânsito, com todo mundo bebendo e dirigindo à vontade, sem qualquer restrição e/ou medo das conseqüências.

O que me traz de volta ao ponto que sempre defendi: o que falta é fiscalização. Elaborar uma lei extremamente rigorosa pode ser salutar para os fins que se deseja atingir – embora, por vezes, o bom senso seja desnecessariamente sacrificado no processo – mas é somente com um Estado atuante na repressão às condutas indevidas que se obtém qualquer benesse da medida. Em outras palavras, já desgastadas pelo uso, digo e repito: a lei anterior era suficiente para evitar a maior parte dos acidentes, o que faltava, como volta a faltar, é atuação efetiva dos órgãos de controle. Na seqüência, podemos elaborar uma legislação dizendo que os bens do motorista alcoolizados ficarão indisponíveis por um ano, os impostos do infrator sofrerão um acréscimo de 10%, não importando sua origem ou instância. Ou, ainda, já que estamos rumando à absoluta falta de meios-termos, podemos determinar a amputação da orelha esquerda do camarada, e da direita em caso de reincidência. Nada vai resolver sem policiais, devidamente equipados, nas vias públicas.

Essa a triste realidade de nosso país: fazemos leis que ‘não pegam’. Como se fosse possível, numa ordem democrática relativamente estável, existir uma lei apenas para constar, uma legislação vigente mas totalmente ineficaz. Espero que, pelo menos no carnaval, essa degradante catarse de apetites desenfreados e abusos de todas as espécies, a fiscalização empregada no início da vigência da lei seca retorne, e nós possamos reiniciar mais um ano – sim, o ano só inicia depois do carnaval, isso é um fato – com a boa notícia de termos menos mortos nas estradas. Se bem que eu acho muito difícil.

Deixem-me fumar, caramba!

Frank Zappa, gênio que era, uma vez respondeu, perguntado sobre o porquê permanecia fumando, se era radicalmente contra o uso de drogas, que para ele cigarros eram comida. As pessoas em São Francisco podiam ter teorias malucas sobre viverem para sempre, mas ele vivia sua vida fumando e bebendo aquela água preta que estava sempre em seu copo. Deu para entender o conceito? Não paro, e pronto… Respeito lugares públicos, gestantes, crianças, idosos e não-fumantes que manifestam vontade em não participar da minha auto-indulgência. No mais, me deixa fumar quieto. Sim, eu sei, faz mal, prejudica a saúde, aumenta a pressão, etc. Mas é TÃO bom… E, de mais a mais, na minha casa mando eu! Aquele abraço.

Na minha cabeça…

a:
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